domingo, 5 de fevereiro de 2012

Prólogo:

ENTRADA AO ESPETÁCULO

    – como é possível existir um céu tão azul e dourado? Isso que se apresenta aos meus olhos é mesmo cativante.

Zalin’Kalahab, sacerdote do Grande Olho, sentia o calor e o agradável ardor daquele sol que vigiava toda Lauthar, levando seus fortes raios de luz e conforto para todos os seres, e em especial aos habitantes do Ermo Deserto das Luzes. Suas vestes, ao contrário do que os estrangeiros imaginavam nunca fora problema para ele, principalmente nestes momentos calorosos de junção divina. Zal usava roupas largas feitas de tecidos leves e algodão, sendo essas tingidas de cores que variavam do cobre ao bronze, além de uma capa dourada que se agitava conforme leves brisas do deserto soprasse. Ali estava quente o bastante para fazer qualquer pessoa do oeste de Lauthar implorar por um mínimo espaço de sombra para se refrescar do calor infernal, mas Zalin adorava profundamente tudo aquilo e sempre se encontrava maravilhado com o presente milagre. As areias que ele estava deitado, pareciam um amontoado de mundos pequeninos e que eram incrivelmente confortáveis, proporcionando a ele horas de admiração e respeito a seu deus em um lugar onde dizem que o verão nunca morre.

O deserto das Luzes é uma criação maravilhosa. Apesar de certas coisas serem em tese eternas naquele lugar, como o sol escaldante e a luz dos templos que perduram até mesmo nas noites escuras, suas dunas nunca são as mesmas. Dunas inteiras se deslocam com uma tremenda facilidade de um local à outro durante as freqüentes tempestades de areia que assolam todo o deserto, cidades castigadas pelo deus sol são soterradas em questões de minutos e outras que outrora pareciam estar ocultas por toda a eternidade acabam ressurgindo com todos os seus tesouros intocáveis e com o que restou de seus antigos habitantes mortos. Clérigos heréticos à fé no grande olho, provavelmente nunca alcançariam qualquer que sejam os seus destinos ao colocarem os pés no deserto, contudo Zalin confiava no julgo de seu deus e estava sempre se orientando pela fé e pelos ensinamentos da proteção aos homens e a vigília do espírito. Mesmo estando prestes a deixar o deserto para trás, ele tinha certeza que a esperança da terra das luzes o acompanharia tanto em vida quanto em morte.

O deserto sempre foi produtor de uma cultura fortemente enraizada no culto ao deus sol, seus clérigos oferecem os maiores tesouros, as melhores e maiores gemas preciosas e o mais fino ouro como oferenda. Assim templos magníficos surgem em meio a areia, sempre imponentes e repletos de decorações em ouro e metais, suas pinturas de cores fortes e cintilantes adornam suas paredes e algumas vezes cedem espaço a vitrais esverdeados, azulados e dourados, permitindo assim a entrada da luz do dia nos cômodos tornando-os maravilhosamente iluminados sendo um lugar onde a escuridão nunca reina. Magicamente os clérigos estão sempre mantendo acesas luzes brilhantes no interior dos templos fazendo deles uma espécie de farol onde os mais diversos aventureiros, viajantes e comerciantes, conseguem encontrar a esperança e força para resistirem as trevas que tomam o deserto durante as noites escuras e frias. Para ser mais exato, são poucos os motivos que fazem os sacerdotes do Grande Olho saírem do deserto e abandonarem o seu povo. Alguns poucos o deixam com o intuito de pilhar riquezas como ouro e pedras preciosas para doá-las aos seus templos e cidades, porém os servos do sol são reclusos em suas crenças e estão sempre cientes de que todos os seres em Lauthar estão sempre sendo observados e que nada escapa aos olhos do Grande Olho. Zalin’Kalahab se encontra deitado nas dunas próximas a sua cidade, adiando ao máximo um encontro já marcado que tem como objetivo, tirá-lo do deserto e dar inicio a uma busca importante para sua vida e a vida de sua família.

Havia tanto tempo que Zalin estava deitado nas dunas, que ele não se percebeu estar admirando o céu a horas, sentindo os últimos grãos de areia do deserto que iria ver durante um bom tempo escorrer por entre seus dedos. Ele lembrou de sua infância no deserto quando Mayara sua irmã mais velha, o ensinava a arte da astronomia e lhe contava histórias sobre a luta eterna entre o rei sol e a dama das trevas. Ele sempre sonhava em viver de perto e talvez participar dessas histórias, mas agora tudo parecia um sonho nostálgico, pois Mayara partira de Luz do Norte ha mais de quinze anos e desde então ele nunca mais a viu. Seu pai deixou sua mãe há uma década para ir procurar sua filha desaparecida e também não retornara. Assim, parece que o destino de sua família se resume nesta busca e a vez de Zalin’Kalahab tentar reunir sua família chegara.

Convencido de que deveria estar na hora de partir, Zal se apoiou em sua lança para poder levantar com maior facilidade e de pé colocou sua arma nas costas. O movimento que ele fez para guardá-la provocou um feixe de luz que reluziu de sua ponta brilhando vividamente por entre as areias do deserto. Caminhando pela tarde que chegava ao fim com um tom avermelhado por toda a extensão oeste daquele céu que antes detinha o azul, Zalin pode perceber o quanto a face do astro rei era divinamente bela e misteriosa, pois assim como ela trás o azul tranquilo da manhã ela também derrama no céu o vermelho sangue em suas tardes.

Após dois terços de horas caminhadas, Hashizz a bela e sombria deusa da noite começava a cobrir o mundo com seu manto negro e o Grande Astro Rei já havia sumido no horizonte tentando encontrá-la do outro lado do mundo, desejando acertar as contas com ela. Zalin avistava o templo do grande deus sol ao longe, ele brilhava e emanava uma luz intensa mostrando que nem mesmo a mãe da noite conseguia sobrepor aos poderes do Deserto das Luzes.

Ao se aproximar do templo Zal pode notar os vultos que havia dentro da construção e percebeu que eles  correspondiam a pessoas conhecidas. A porta que se encontrava fechada, estava entalhada em pedra e marcada com o simbolo do deus sol, ao se aproximar Zalin pode notar o calor que o templo emanava e sentiu mais uma vez o conforto e a proteção. Ao abrir a porta, notou que haviam três pessoas no meio de um hall circular, Aldár Khan, sendo este o único mago conhecido de Zal competente o bastante em Luz do Norte e que poderia ajudá-lo a atravessar todo o deserto, fazendo-o chegar no outro extremo do continente de Lautar. Aldár já estava velho de mais para assumir os riscos de uma jornada, mais quando jovem, ele e o pai de Zalin eram componentes de um grupo de aventureiros que exploraram as terras alem do deserto, essas aventuras fez com que o mago conhecesse vários reinos onde ele sempre contou para Zal histórias de seus feitos. Logo atrás de Áldar, um dos servos do templo estava amparando uma velha senhora, Kail’la Kalahab, a mãe de Zal.

– Sinto muito pela demora - Zalin não era muito bom em desculpas mais sabia o poder que elas tinham – me perdi em memórias aproveitando os minutos que me restam no deserto.

Zalin notou que sua mãe estava em um transe parecido com o que ele havia presenciado há um tempo atrás quando seu pai partiu em busca de sua irmã mais velha.

– Não se desculpe pelas lembranças que o deserto lhe traz Zalin – A voz de Aldár soou leve e fazia o mesmo efeito de uma brisa das tardes – Apenas tome cuidado com elas tanto aqui no deserto, quanto fora dele. Aliás... principalmente fora dele! – o mago levantou apoiando-se no seu cajado e ajeitando suas vestes esverdeadas e longas que tinham fortes tons em vermelho e amarelo. Zalin apenas presenciava a cena consentindo aquelas palavras que ele julgava ser sempre sábias.

–Zal – O rosto de Kail’la era queimado pelo sol e com poucas rugas, o seus cabelos lisos eram castanhos, podendo notar poucos fios esbranquiçados saindo de suas têmporas e seus olhos tinham um tom claro de amêndoas – espero que você demore menos que seu pai, ou vou ter que ir atrás de vocês três – disse ela sorrindo e estendendo seus braços deixando o manto amarronzado envolver o corpo de Zalin ao abraçá-lo.

– Mãe, não vou demorar e você verá como a benção do grande olho fará a diferença nesta busca. Nunca estarei só, tenho certeza que meu caminho será repleto de luz e conforto – Zalin não queria preocupá-la, mais sabia que seria difícil manter a promessa.

– Quero apenas lhe pedir uma coisa antes de ir – tremula, Kail’la retirava um anel de seu dedo e colocara nos dedos de seu filho – este anel um dia foi a prova de meu matrimonio com seu pai, use-o e quando se encontrar com ele, entregue-o para ele decidir o que fazer... Me prometa!

– Mais mãe – A ideia de abandonar sua mãe no deserto nestas condições não lhe agradava nem um pouco – não posso fazer isso. Vocês estão unidos aos olhos do Grande Olho.

– E os olhos dele não valem mais do que este anel?

Zalin Ponderou.

– Tudo bem então, eu prometo. – Ele sabia que não haveria como negar este pedido.

Ao distanciar de sua mãe Zal percebeu que o perfume dos óleos que ela usava durante a noite, seria uma lembrança forte que carregaria daquele local na lembrança durante sua jornada. As festas realizadas em homenagem ao seu deus, o ritmo em que as pessoas viviam naquele local, suas cores e luzes, o ar, a areia, tudo faria lembrar Luz do Norte e principalmente sua família.

– Você não acha melhor partir amanhã pela manhã? – A voz de Aldár apareceu no meio daquela profusão de sentimentos e nostalgia recém adquirida.

– Não... Quanto antes eu sair melhor, não pretendo passar por nenhum empecilho Áldar.

Zalin apesar de hesitante em abandonar sua mãe e seu povo estava com um pensamento confiante de que desta vez ele iria conseguir fazer sua família se unir novamente, pois junto com ele e sua jornada vinha a fé fervente no deus sol. Para Zalin o caminho que estava sendo percorrido pela sua família e o qual ele estava prestes a se enveredar, necessitava de luz e fé na esperança e estas eram as virtudes que faziam dele um homem ímpar e digno de realizações notáveis. Coragem e fé na verdade, eram qualidades presentes no seu íntimo e através delas uma força brotava em seu interior. Qualquer um que prestasse o mínimo de atenção, veria em seus olhos a determinação da benevolência através da fidelidade e da honra.

– Bem, então é chegada a hora... – Áldar chamou Zal para perto de si. Enquanto o jovem andava por entre os assentos pisando em um tapete de cor alaranjada, ele observou a fisionomia estática de Kail'la – mais alguma coisa a dizer Kail’la?

– Volte logo Zal, não demore. – Não brotaram lagrimas de seus olhos mas muito menos algum resquício de sorriso escapou em seu rosto. Houve simplesmente um leve toque de tristeza e consentimento com as escolhas por ele tomadas.

Aldár sibilou algumas palavras que soaram incompreensíveis para Zalin, esse mesmo som perfurou sua mente fazendo com que somente as palavras do mago fossem ouvidas numa espécie de vácuo. Em um dado momento ele pensou que sua lança, seus equipamentos e todo o seu mundo fossem desaparecer por completo. Ao tocar no braço de Áldar uma sensação de vazio o tomou, juntamente com ela a imagem turva de Kail’la no centro do templo com suas vestes amarronzadas desvencilhou-se tremeluzindo, dando lugar a um novo horizonte incomum ao de costume, mas Zal tinha certeza de três coisas... era noite, chovia e ele estava ao lado de Áldar.