ENTRADA AO ESPETÁCULO
– como é possível existir um céu tão azul e dourado? Isso que se apresenta
aos meus olhos é mesmo cativante.
Zalin’Kalahab, sacerdote do Grande Olho, sentia o calor e o agradável
ardor daquele sol que vigiava toda Lauthar, levando seus fortes raios de luz e
conforto para todos os seres, e em especial aos habitantes do Ermo Deserto das
Luzes. Suas vestes, ao contrário do que os estrangeiros imaginavam nunca fora
problema para ele, principalmente nestes momentos calorosos de junção divina.
Zal usava roupas largas feitas de tecidos leves e algodão, sendo essas tingidas
de cores que variavam do cobre ao bronze, além de uma capa dourada que se
agitava conforme leves brisas do deserto soprasse. Ali estava quente o bastante
para fazer qualquer pessoa do oeste de Lauthar implorar por um mínimo espaço de
sombra para se refrescar do calor infernal, mas Zalin adorava profundamente
tudo aquilo e sempre se encontrava maravilhado com o presente milagre. As
areias que ele estava deitado, pareciam um amontoado de mundos pequeninos e que
eram incrivelmente confortáveis, proporcionando a ele horas de admiração e
respeito a seu deus em um lugar onde dizem que o verão nunca morre.
O deserto das Luzes é uma criação maravilhosa. Apesar de certas coisas
serem em tese eternas naquele lugar, como o sol escaldante e a luz dos templos
que perduram até mesmo nas noites escuras, suas dunas nunca são as mesmas.
Dunas inteiras se deslocam com uma tremenda facilidade de um local à outro
durante as freqüentes tempestades de areia que assolam todo o deserto, cidades
castigadas pelo deus sol são soterradas em questões de minutos e outras que
outrora pareciam estar ocultas por toda a eternidade acabam ressurgindo com
todos os seus tesouros intocáveis e com o que restou de seus antigos habitantes
mortos. Clérigos heréticos à fé no grande olho, provavelmente nunca alcançariam
qualquer que sejam os seus destinos ao colocarem os pés no deserto, contudo
Zalin confiava no julgo de seu deus e estava sempre se orientando pela fé e
pelos ensinamentos da proteção aos homens e a vigília do espírito. Mesmo
estando prestes a deixar o deserto para trás, ele tinha certeza que a esperança
da terra das luzes o acompanharia tanto em vida quanto em morte.
O deserto sempre foi produtor de uma cultura fortemente enraizada no
culto ao deus sol, seus clérigos oferecem os maiores tesouros, as melhores e
maiores gemas preciosas e o mais fino ouro como oferenda. Assim templos
magníficos surgem em meio a areia, sempre imponentes e repletos de decorações
em ouro e metais, suas pinturas de cores fortes e cintilantes adornam suas
paredes e algumas vezes cedem espaço a vitrais esverdeados, azulados e
dourados, permitindo assim a entrada da luz do dia nos cômodos tornando-os
maravilhosamente iluminados sendo um lugar onde a escuridão nunca reina.
Magicamente os clérigos estão sempre mantendo acesas luzes brilhantes no
interior dos templos fazendo deles uma espécie de farol onde os mais diversos
aventureiros, viajantes e comerciantes, conseguem encontrar a esperança e força
para resistirem as trevas que tomam o deserto durante as noites escuras e
frias. Para ser mais exato, são poucos os motivos que fazem os sacerdotes
do Grande Olho saírem do deserto e abandonarem o seu povo. Alguns poucos o
deixam com o intuito de pilhar riquezas como ouro e pedras preciosas para
doá-las aos seus templos e cidades, porém os servos do sol são reclusos em suas
crenças e estão sempre cientes de que todos os seres em Lauthar estão sempre
sendo observados e que nada escapa aos olhos do Grande Olho. Zalin’Kalahab se
encontra deitado nas dunas próximas a sua cidade, adiando ao máximo um encontro
já marcado que tem como objetivo, tirá-lo do deserto e dar inicio a uma busca
importante para sua vida e a vida de sua família.
Havia tanto tempo que Zalin estava deitado nas dunas, que ele não se
percebeu estar admirando o céu a horas, sentindo os últimos grãos de areia do
deserto que iria ver durante um bom tempo escorrer por entre seus dedos. Ele
lembrou de sua infância no deserto quando Mayara sua irmã mais velha, o
ensinava a arte da astronomia e lhe contava histórias sobre a luta eterna entre
o rei sol e a dama das trevas. Ele sempre sonhava em viver de perto e talvez
participar dessas histórias, mas agora tudo parecia um sonho nostálgico, pois
Mayara partira de Luz do Norte ha mais de quinze anos e desde então ele nunca
mais a viu. Seu pai deixou sua mãe há uma década para ir procurar sua filha
desaparecida e também não retornara. Assim, parece que o destino de sua família
se resume nesta busca e a vez de Zalin’Kalahab tentar reunir sua família
chegara.
Convencido de que deveria estar na hora de partir, Zal se apoiou em sua
lança para poder levantar com maior facilidade e de pé colocou sua arma nas
costas. O movimento que ele fez para guardá-la provocou um feixe de luz que
reluziu de sua ponta brilhando vividamente por entre as areias do deserto.
Caminhando pela tarde que chegava ao fim com um tom avermelhado por toda a
extensão oeste daquele céu que antes detinha o azul, Zalin pode perceber o
quanto a face do astro rei era divinamente bela e misteriosa, pois assim como
ela trás o azul tranquilo da manhã ela também derrama no céu o vermelho sangue
em suas tardes.
Após dois terços de horas caminhadas, Hashizz a bela e sombria deusa da
noite começava a cobrir o mundo com seu manto negro e o Grande Astro Rei já
havia sumido no horizonte tentando encontrá-la do outro lado do mundo,
desejando acertar as contas com ela. Zalin avistava o templo do grande deus sol
ao longe, ele brilhava e emanava uma luz intensa mostrando que nem mesmo a mãe
da noite conseguia sobrepor aos poderes do Deserto das Luzes.
Ao se aproximar do templo Zal pode notar os vultos que havia dentro da
construção e percebeu que eles correspondiam a pessoas conhecidas. A
porta que se encontrava fechada, estava entalhada em pedra e marcada com o
simbolo do deus sol, ao se aproximar Zalin pode notar o calor que o templo
emanava e sentiu mais uma vez o conforto e a proteção. Ao abrir a porta, notou
que haviam três pessoas no meio de um hall circular, Aldár Khan, sendo este o
único mago conhecido de Zal competente o bastante em Luz do Norte e que poderia
ajudá-lo a atravessar todo o deserto, fazendo-o chegar no outro extremo do
continente de Lautar. Aldár já estava velho de mais para assumir os riscos de
uma jornada, mais quando jovem, ele e o pai de Zalin eram componentes de um
grupo de aventureiros que exploraram as terras alem do deserto, essas aventuras
fez com que o mago conhecesse vários reinos onde ele sempre contou para Zal
histórias de seus feitos. Logo atrás de Áldar, um dos servos do templo estava
amparando uma velha senhora, Kail’la Kalahab, a mãe de Zal.
– Sinto muito pela demora - Zalin não era muito bom em desculpas mais
sabia o poder que elas tinham – me perdi em memórias aproveitando os minutos
que me restam no deserto.
Zalin notou que sua mãe estava em um transe parecido com o que ele havia
presenciado há um tempo atrás quando seu pai partiu em busca de sua irmã mais
velha.
– Não se desculpe pelas lembranças que o deserto lhe traz Zalin – A voz
de Aldár soou leve e fazia o mesmo efeito de uma brisa das tardes – Apenas tome
cuidado com elas tanto aqui no deserto, quanto fora dele. Aliás...
principalmente fora dele! – o mago levantou apoiando-se no seu cajado e
ajeitando suas vestes esverdeadas e longas que tinham fortes tons em vermelho e
amarelo. Zalin apenas presenciava a cena consentindo aquelas palavras que ele
julgava ser sempre sábias.
–Zal – O rosto de Kail’la era queimado pelo sol e com poucas rugas, o
seus cabelos lisos eram castanhos, podendo notar poucos fios esbranquiçados
saindo de suas têmporas e seus olhos tinham um tom claro de amêndoas – espero
que você demore menos que seu pai, ou vou ter que ir atrás de vocês três –
disse ela sorrindo e estendendo seus braços deixando o manto amarronzado
envolver o corpo de Zalin ao abraçá-lo.
– Mãe, não vou demorar e você verá como a benção do grande olho fará a
diferença nesta busca. Nunca estarei só, tenho certeza que meu caminho será
repleto de luz e conforto – Zalin não queria preocupá-la, mais sabia que seria
difícil manter a promessa.
– Quero apenas lhe pedir uma coisa antes de ir – tremula, Kail’la
retirava um anel de seu dedo e colocara nos dedos de seu filho – este anel um
dia foi a prova de meu matrimonio com seu pai, use-o e quando se encontrar com
ele, entregue-o para ele decidir o que fazer... Me prometa!
– Mais mãe – A ideia de abandonar sua mãe no deserto nestas condições
não lhe agradava nem um pouco – não posso fazer isso. Vocês estão unidos aos
olhos do Grande Olho.
– E os olhos dele não valem mais do que este anel?
Zalin Ponderou.
– Tudo bem então, eu prometo. – Ele sabia que não haveria como negar
este pedido.
Ao distanciar de sua mãe Zal percebeu que o perfume dos óleos que ela
usava durante a noite, seria uma lembrança forte que carregaria daquele local
na lembrança durante sua jornada. As festas realizadas em homenagem ao seu
deus, o ritmo em que as pessoas viviam naquele local, suas cores e luzes, o ar,
a areia, tudo faria lembrar Luz do Norte e principalmente sua família.
– Você não acha melhor partir amanhã pela manhã? – A voz de Aldár
apareceu no meio daquela profusão de sentimentos e nostalgia recém adquirida.
– Não... Quanto antes eu sair melhor, não pretendo passar por nenhum
empecilho Áldar.
Zalin apesar de hesitante em abandonar sua mãe e seu povo estava com um
pensamento confiante de que desta vez ele iria conseguir fazer sua família se
unir novamente, pois junto com ele e sua jornada vinha a fé fervente no deus
sol. Para Zalin o caminho que estava sendo percorrido pela sua família e o qual
ele estava prestes a se enveredar, necessitava de luz e fé na esperança e estas
eram as virtudes que faziam dele um homem ímpar e digno de realizações
notáveis. Coragem e fé na verdade, eram qualidades presentes no seu íntimo e
através delas uma força brotava em seu interior. Qualquer um que prestasse o
mínimo de atenção, veria em seus olhos a determinação da benevolência através
da fidelidade e da honra.
– Bem, então é chegada a hora... – Áldar chamou Zal para perto de si.
Enquanto o jovem andava por entre os assentos pisando em um tapete de cor
alaranjada, ele observou a fisionomia estática de Kail'la – mais alguma coisa a
dizer Kail’la?
– Volte logo Zal, não demore. – Não brotaram lagrimas de seus olhos mas
muito menos algum resquício de sorriso escapou em seu rosto. Houve simplesmente
um leve toque de tristeza e consentimento com as escolhas por ele tomadas.
Aldár sibilou algumas palavras que soaram incompreensíveis para Zalin,
esse mesmo som perfurou sua mente fazendo com que somente as palavras do mago
fossem ouvidas numa espécie de vácuo. Em um dado momento ele pensou que sua
lança, seus equipamentos e todo o seu mundo fossem desaparecer por completo. Ao
tocar no braço de Áldar uma sensação de vazio o tomou, juntamente com ela a
imagem turva de Kail’la no centro do templo com suas vestes amarronzadas
desvencilhou-se tremeluzindo, dando lugar a um novo horizonte incomum ao de
costume, mas Zal tinha certeza de três coisas... era noite, chovia e ele estava
ao lado de Áldar.